Quem me vir chorar, deverá saber que não
são lágrimas que eu choro. Quem me vir caminhar saberá que não choro, porque
chorar é para fracos e homens como eu não choram. É por isso que em vez de
chorar, caminho. Caminhar não será o melhor verbo a usar. Deambulo, vagabundo
de mim, vagabundo de nós, vagabundo de ti...
Portanto, povos que habitam este horror de
memórias, não estarei a chorar enquanto caminho junto ao rio. Poderá eventualmente
parecer que choro, poderão até copiosas lágrimas escorrerem-me pelo rosto a baixo,
que não estou a chorar. Chorar é para fracos não é? Estou sim a pensar.
Estou a pensar em ti. Sei que não devo,
sei que já chega, mas pensar em ti passou a ser um bom passatempo quando nada
tenho que fazer e só me resta pensar. Sem dar por ela, estou já a pensar em ti
e sem dares por mim estou eu a pensar em ti. Não é que crie desejos exacerbados
sobre nós, coisas tão idiotas como te ter aqui comigo nesta cidade cheia de
luz. Não, Paris deixou de ser nossa e passou a ser minha porque ela nunca foi
nem nossa nem tua.
Paris sempre foi dos amantes e nós nunca amantes
fomos. Amamo-nos sim, mas nunca fomos amantes. Porque para se ser amante é preciso
dar um ramo de rosas antes dos encontros e eu nunca fui homem para tas dar.
Assim nunca fomos amantes, mesmo que, enganada, julgues que fostes. Gostava de
o ter sido, agora que penso nisso.
Mas as dúvidas não matam o desejo e se
hoje penso em ti não é para desejar voltar a sentir o teu corpo nu deitado
naquela cama de hotel parisiense. Penso em ti somente como coisa vaga, coisa
metafísica, coisa do passado. Coisa que vale a pena pensar porque foi bom e
nunca voltará a acontecer. Se voltasse a acontecer será que seria tão bom?
Penso que não.
É por isso que, povos de Paris, se me
virem a caminhar junto ao rio, se virem que chove e que não me importo de andar
à chuva, se virem lágrimas a escorrerem-me pelo queixo a baixo e a diluírem-se na
água do rosto, não pensem que choro. Se chorasse sentiria saudades e só lusos
sabem o que isso é. Habito uma cidade nada lusa e por isso não sinto saudades,
porque sentir saudades é querer que o passado volte. Não quero que volte. O
passado que volta nunca é tão bom como
aquele que já foi.
Se hoje me virem a passear junto ao rio,
encharcado e abatido, e mesmo que pareça que chore, não sintam pena do
vagabundo que por ali anda. Este poeta luso que já não sente saudades, sente
tudo menos desejo do passado. Este poeta luso que caminha na margem do Sena
pensa só em ti.
Não voltes, mesmo que esse seja o meu real
desejo. Porque voltares implicaria o passado e o passado doí demais para
voltar. Fica por terras lusas, porque o poeta luso já nem luso é. Já não sente
saudades, como um luso deveria sentir...

