Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Vagabundo Luso


Quem me vir chorar, deverá saber que não são lágrimas que eu choro. Quem me vir caminhar saberá que não choro, porque chorar é para fracos e homens como eu não choram. É por isso que em vez de chorar, caminho. Caminhar não será o melhor verbo a usar. Deambulo, vagabundo de mim, vagabundo de nós, vagabundo de ti...
Portanto, povos que habitam este horror de memórias, não estarei a chorar enquanto caminho junto ao rio. Poderá eventualmente parecer que choro, poderão até copiosas lágrimas escorrerem-me pelo rosto a baixo, que não estou a chorar. Chorar é para fracos não é? Estou sim a pensar.
Estou a pensar em ti. Sei que não devo, sei que já chega, mas pensar em ti passou a ser um bom passatempo quando nada tenho que fazer e só me resta pensar. Sem dar por ela, estou já a pensar em ti e sem dares por mim estou eu a pensar em ti. Não é que crie desejos exacerbados sobre nós, coisas tão idiotas como te ter aqui comigo nesta cidade cheia de luz. Não, Paris deixou de ser nossa e passou a ser minha porque ela nunca foi nem nossa nem tua.
 Paris sempre foi dos amantes e nós nunca amantes fomos. Amamo-nos sim, mas nunca fomos amantes. Porque para se ser amante é preciso dar um ramo de rosas antes dos encontros e eu nunca fui homem para tas dar. Assim nunca fomos amantes, mesmo que, enganada, julgues que fostes. Gostava de o ter sido, agora que penso nisso.
Mas as dúvidas não matam o desejo e se hoje penso em ti não é para desejar voltar a sentir o teu corpo nu deitado naquela cama de hotel parisiense. Penso em ti somente como coisa vaga, coisa metafísica, coisa do passado. Coisa que vale a pena pensar porque foi bom e nunca voltará a acontecer. Se voltasse a acontecer será que seria tão bom? Penso que não.
É por isso que, povos de Paris, se me virem a caminhar junto ao rio, se virem que chove e que não me importo de andar à chuva, se virem lágrimas a escorrerem-me pelo queixo a baixo e a diluírem-se na água do rosto, não pensem que choro. Se chorasse sentiria saudades e só lusos sabem o que isso é. Habito uma cidade nada lusa e por isso não sinto saudades, porque sentir saudades é querer que o passado volte. Não quero que volte. O passado que volta nunca é  tão bom como aquele que já foi.
Se hoje me virem a passear junto ao rio, encharcado e abatido, e mesmo que pareça que chore, não sintam pena do vagabundo que por ali anda. Este poeta luso que já não sente saudades, sente tudo menos desejo do passado. Este poeta luso que caminha na margem do Sena pensa só em ti.
Não voltes, mesmo que esse seja o meu real desejo. Porque voltares implicaria o passado e o passado doí demais para voltar. Fica por terras lusas, porque o poeta luso já nem luso é. Já não sente saudades, como um luso deveria sentir...

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

"The Road not taken"


        Não sendo desta vez eu o autor, deixo hoje sim uma tradução do poema "The Road not taken". Sempre fiz uma interpretação muito própria dele, muito minha... Sinto que por vezes precisamos de pensar qual o trilho a escolher... 

"I took the one less traveled by, / and that made all the difference."

Poderão encontrar o poema original aqui

A estrada não trilhada
Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…
Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.
E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.


#Tradução: Renato Suttana

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

12/12/2011


            Se não fosse o repetir inquietante destes números, diria que hoje foi o dia em que cheguei à conclusão de que jamais serei escritor. Desculpem-me desde já o meu aparente negativismo, mas de certo que estou a ser mal interpretado. Jamais serei escritor porque depois do dia de hoje decidi que seria homem. Ainda mais confuso? Talvez sim, mas esta maldita língua não me serve a mais.

            O grande defeito de ser escritor é viver numa paixão platónica por dois seres distintos: o eu próprio e os ídolos literários. E acreditem que isto é palavra de quem já ousou ser escritor um dia. Sei bem do que falo. Ainda à pouco o era.
            É verdade que, quando falo de escritor não falo dos Escritores. Falo sim daqueles que andam de casaco à escritor, bloco de notas à escritor, que caminham à escritor e que vagueiam como escritores pelas ruas repletas de folhas outonais que pintam a cidade de amarelos tristes. Sou portanto exemplo dessa espécie. Vagueio pela cidade incomodado com o quanto horrenda que ela é. Incomodam-me os barulhos dos carros que passam demasiado rápido, incomoda-me o barulho do grupo de adolescentes que ri demasiado alto num banco de um jardim qualquer. Não há nada mais irritante que um riso demasiado alto.

Sim eles incomodam-me porque sou triste e a felicidade dos outros é como o pensamento: incomoda. Portanto não me venham com ensinamentos ético-morais de que não devo sentir desprezo pela felicidade dos outros. A verdade é que sinto. Sinto acima de tudo desprezo pelo grupo de adolescentes que se ri porque sei que, lá no fundo, não passo também de um que gostava de ser como eles. Um adolescente que devia também estar ali sentado, num banco de jardim ao anoitecer com um grupo de amigos (enfermo, é certo) a rir, e ser feliz. Mas não, estou perante um problema e só esse problema é que me interessa: " Sobre o que escreverei agora?". Não é isto de um narcisismo inquietante? Também o acho.
            Por isso é que decidi hoje deixar de ser escritor e passar a ser homem. Quero portanto viver esta vida porque jamais terei próxima. Quero sentir que sou somente homem e jamais escritor, por saber que ser feliz é a única forma genuína de fazer arte. Quando escrevo textos negativistas cheios de sarcasmo e inseguranças sei que não estou a construir a felicidade. Poderá até o produto literário final ser de qualidade, não o negarei; a final de contas somos todos seres sádicos que gostamos de ler a dor dos poetas. Mas essa nunca será a forma genuína de ser feliz, e por conseguinte ser homem, e por conclusão ser um bom Escritor ( e faça-se notar a letra maiúscula).

            Não. A partir de hoje sou homem. Para além das inúmeras piadas de teor sexual que se possam concluir desta minha afirmação, espero que a mensagem tenha chegado com clareza. Talvez nunca ninguém compreenderá completamente tudo o que digo aqui (para ser sincero, nem eu mesmo compreendo por completo) mas saio deste texto com a confirmação da hipótese que formulara antes de o ter escrito.
Deixarei de ser escritor para passar a ser homem. E o que me distinguirá de todos os outros é que, tentando ser feliz, tentarei escrever.

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

Saber bem, saber mal...

Sabe-me bem o Sangue,
quiçá por saber bem a dor.
Sabe-me bem o Sol,
quem sabe se fará calor?

Mas sabe-me mal o tédio
o dia-a-dia desperdiçado.
E logo assim o impossível imprudente,
brota no pensamento:

"Quero morrer de morte dura,
porque a morte mole a mim não serve"

E entre estar vivo julgando-se morto,
ou estar morto e já nada ser,
Venha o Sol, venha a dor,
Venha o fim que prefiro morrer!



Post Scriptum: Muitos farão uma interpretação macabra deste poema. Lembrem-se que: "O poeta é um fingidor. /Finge tão completamente /Que chega a fingir que é dor /A dor que deveras sente."